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O Diagnostico em Gestalt-Terapia

Enviado por Luciana Aguiar - 29/04/2012 | 00:00:55

O Diagnostico em Gestalt-Terapia

Luciana Aguiar

(texto protegido por direitos autorais)

 

Ao pensarmos em diagnóstico, geralmente,replica watches reportamo-nos a uma perspectiva tradicional na Psicologia Clínica, que envolve determinados procedimentos pré-estabelecidos, realizados em uma determinada ordem, num determinado número de sessões, com o objetivo de localizar o que o cliente apresenta dentro de categorias específicas, de estabelecer objetivos terapêuticos, de escolher técnicas para alcançá-los, além de emitir expectativas prognósticas.

Dentro de uma perspectiva de homem gestáltica, tal concepção de diagnóstico torna-se absolutamente incompatível uma vez que, por exemplo, se entendemos que o homem é um constante vir a ser, como encaixá-lo em uma categoria fixa, que afirma Omega Constellation Replica ele é isso ou é aquilo? Além disso, se afinados com a fenomenologia, privilegiamos a sabedoria do cliente e a sua atribuição de significado às suas próprias questões, como um psicoterapeuta, após observá-lo e testá-lo vai enunciar aquilo que ele é e o significado de suas questões e dificuldades? Ou ainda, se acreditamos que o homem é um ser de potencialidades e tem a liberdade de escolher a cada momento o caminho a seguir, como traçar um plano terapêutico para esse cliente? louis vuitton handbagsE se priorizamos a singularidade humana, como supor que todos os seres humanos são passíveis de serem encaixados em um determinado número de categorias psicopatológicas? E mais: se compreendemos o ser humano como sempre fazendo parte de um campo, como estabelecer causas únicas para seus padrões relacionais disfuncionais?

 

 Tal incompatibilidade entre os pressupostos do psicodiagnóstico clássico e a concepção de ser humano da Gestalt-Terapia gerou durante muito tempo uma completa aversão de seus representantes a qualquer possibilidade de realização de um diagnóstico, percebido como uma tentativa de classificação do homem, julgamento de suas escolhas e aprisionamento de suas possibilidades criativas de estar no mundo. Conforme aponta Yontef (1998):

“A Gestalt-Terapia rejeitou a ênfase diagnóstica da psicanálise clássica junto com a teoria do inconsciente, do relacionamento e da causalidade mecanicista. A visão do terapeuta como a autoridade que resolvia tudo com antecedência, necessitando de um longo processo diagnóstico, para então dizer ao paciente o que era a verdade, foi descartada em favor da crença de que os valores de crescimento, clareza, verdade emergiam para o indivíduo resultantes da interação social – do relacionamento dialógico entre terapeuta e paciente”(p.276)

  No entanto, ao longo dos últimos anos, com o resgate de seus pressupostos filosóficos e a teoria proposta por Perls Hefferline e Goodman (1997), bem como  uma maior articulação com a prática clínica, paralelamente a uma avaliação e revisão da forma como esta vinha sendo realizada e, particularmente, das dificuldades encontradas e dos “resultados” obtidos, a questão da necessidade de se realizar um diagnóstico começou a ser discutida.

Em uma linguagem gestáltica poderíamos afirmar que finalmente conseguimos “discriminar criativamente” a questão do diagnóstico em Gestalt-Terapia. Assim, paramos de simplesmente refutar a perspectiva clássica, e sobretudo resgatar a proposta de diagnostico implicita no seio da teoria gestaltica desde os seus primordios.

Nesse sentido, começamos a perceber que apesar de o homem ser um constante vir a ser, quando ele vem à psicoterapia é exatamente porque encontra-se impedido nesse fluir e cristalizado em algumas formas que não estão sendo experimentados como satisfatórios ou sequer são percebidas. Observamos também que sua sabedoria organísmica encontra-se prejudicada, pois ele possui pouca awareness a respeito de suas necessidades e do significado de suas questões.

 Ele vem à psicoterapia exatamente porque não consegue dar sentido, continuidade e direção ao seu projeto de vida, escolhendo sozinho seus caminhos e responsabilizando-se por suas escolhas. Ainda que ele se apresente de forma única, também traz características e comportamentos semelhantes a de outros clientes, apontando para algumas regularidades, para algo compartilhado com outros seres humanos nessas configurações.

Apesar de não apontarmos uma causa única para seus problemas e dificuldades, geralmente é isso que o cliente faz, aprisionando suas possibilidades presentes em determinados fatos ou pessoas. É fundamental poder identificar todos os elementos do campo possivelmente envolvidos na situação de forma que psicoterapeuta e cliente tenham mais opções de compreensão e atuação para a construção de novas formas de relação com o mundo.

Começamos a nos dar conta de que, apesar dos pressupostos do diagnóstico clássico não nos servir, isso não nos eximia da necessidade de realizar um diagnóstico que nos permitisse compreender a experiência do cliente, as formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo, suas necessidades, seus objetivos e particularmente suas formas de se impedir de alcançar uma vida plena e satisfatória.

Assim, começamos a refletir sobre a necessidade de realizar um diagnóstico que não fosse definitivo, pois concebemos o homem em processo constante, que não fosse marcado pela causalidade, pois não percebemos o comportamento humano como resultado de um mecanismo de causa e efeito, mas de processos circulares de retroalimentação e de relações estabelecidas entre inúmeros elementos no campo, e que permitisse identificar os elementos do campo possivelmente envolvidos na situação de forma que psicoterapeuta e cliente tivessem mais opções de compreensão e atuação para a construção de novas formas de relação com o mundo, que não fossem hierarquicamente estabelecidas.

 

Acreditamos em um homem que pode nos dizer a respeito dele e valorizamos a descrição da sua experiência. É preciso não reduzi-lo às características compartilhadas com outros seres humanos, pois ele é uma totalidade que vai além das  comunalidades em uma configuração total que é sempre única.

Caminhando nesse sentido, atualmente, podemos falar de uma perspectiva gestáltica de diagnóstico que denominamos de compreensão diagnóstica, totalmente afinada com a concepção de ser humano em Gestalt-Terapia, que privilegia a observação, a descrição da experiência singular do cliente, as relações entre os diversos elementos do campo do qual ele faz parte e o fluxo das experiências humanas que se constituem como um processo ininterrupto e infinito.

Dessa forma, compartilhamos com Frazão (1996) acerca da perspectiva processual do diagnóstico, o que aponta para uma compreensão diagnóstica obrigatoriamente como uma descrição da singularidade existencial do cliente no momento presente. Assim, tal perspectiva implica em uma descrição da singularidade existencial do cliente  como parte de um campo cuja configuração total também é singular, dos elementos que compõem esse campo, da forma como eles se relacionam, particularmente das relações cristalizadas em formas disfuncionais de busca de satisfação, com a identificação dos mecanismos de evitação de contato predominantes e das funções de contato distorcidas e/ou bloqueadas, além do levantamento dos recursos para transformação presentes no campo.

É importante ressaltar que tal perspectiva de diagnóstico constitui-se em um desafio para o psicoterapeuta, usualmente formado dentro dos parâmetros do psicodiagnóstico clássico. A necessidade de abrir mão da “vontade de saber” sobre o cliente, do afã de “entender tudo” que se passa, de dar explicações imediatas para todos os seus comportamentos, e de dar soluções e encaminhamentos padronizados para o que foi “descoberto” sobre ele, precisa ser um constante compromisso do gestalt-terapeuta. Nesse momento vale lembrar o que Perls et al. (1997) assinalam a respeito do processo terapêutico: o objetivo da psicoterapia não é o de o psicoterapeuta se dar conta de algo sobre o cliente, mas do cliente se dar conta dele mesmo.

Isso aponta para a importância do psicoterapeuta trabalhar sua própria ansiedade de “saber” e “entender”, que geralmente atende para a necessidade de sentir-se um “bom terapeuta”, e estar sempre afinado e fundamentado em uma atitude fenomenológica de “não saber” e “ir às coisas mesmas” para junto com o cliente, ir gradativamente auxiliando-o a  desvelar seus significados.

É extremamente comum em nossa experiência em cursos de capacitação e treinamento de gestalt-terapeutas, notar a presença de uma grande ansiedade nos profissionais acerca do “como fazer” com um cliente  “tímido”, “agressivo” ou “ciumento”, como se para cada “quadro” apresentado, houvesse uma forma padronizada de condução do processo terapêutico, o que novamente nos reporta à importância de não perdermos de vista nossa concepção de homem na condução tanto da compreensão diagnóstica quanto do processo terapêutico.

No entanto, costumamos assinalar que não há necessidade de nos contrapormos aos manuais de psicopatologia, nem de negar suas descrições. Nesse aspecto, concordamos com Deslile (1999) quando ele observa que os critérios estabelecidos pelo DSM-IV são predominantemente descritivos e, por isso, podem ser considerados pelos gestalt-terapeutas sem que isso venha necessariamente ferir sua compreensão fenomenológica do cliente, uma vez que ela vai além das regularidades observadas pelo manual. Conforme aponta Yontef (1998):

“Diagnosticar pode ser um processo de prestar atenção, respeitosamente, a quem a pessoa é, tanto como um indivíduo único como no que diz respeito às características partilhadas com outros indivíduos”. (p.279)

 Dessa forma, "diagnostico"  nada mais é do que buscar orientação na forma como cada cliente interrompe sua experiencia e realiza seus ajustes criativos a cada momento, no fluxo da relação que se estabelece entre psicoterapeuta e cliente.

Conforme já atestavam Perls, Hefferline e Goodman, em 1951, diagnostico e psicoterapia são uma coisa só.

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